| Matéria
do Jornal Hoje em Dia
Dr. André Márcio Murad, 42
anos, natural de Lavras-MG é Professor Adjunto-Doutor
Coordenador da Disciplina e do Serviço de Oncologia
do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de
Minas Gerais e do Instituto de Ciências Oncológicas
do Hospital Vera Cruz-Lifecenter. Graduado em Medicina pela
UFMG (1984), especialista em Clínica Médica
e Hematologia pelo Hospital das Clínicas da UFMG e
em Oncologia e Hematologia pelo Fox Chase Cancer Center, Philadelphia,
EUA. Ë Mestre em Ginecologia pela Escola Paulista de
Medicina, UNIFESP e Doutor em Gastroenterologia pela Faculdade
de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Autor
de 160 artigos nacionais e internacionais em periódicos
médicos dos mais relevantes. É vice-presidente
da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e da Associação
Brasileira de Cuidados Paliativos
1- A gente cresceu ouvindo que câncer
é a reprodução desordenada de células.
Este conceito ainda é correto?
Sim, é correto. Câncer é
uma doença causada por alterações estruturais
nos genes do DNA das células, o que resulta em um uma
divisão descontrolada das mesmas. Estas células
duplicam-se de forma muito rápida e, após algum
tempo, podem invadir outras partes do corpo. Os genes alterados
passam a produzir substâncias que determinam a imortalização
das células, ou seja, estas passam a não mais
respeitar o ciclo natural que determina seu aparecimento e
posterior desaparecimento Estas alterações genéticas
podem ser hereditárias (herdadas) ou adquiridas, através
dos chamados s fatores ambientais, que são classificados
em químicos, físicos e biológicos. Como
agentes químicos, destacam-se o tabaco, a dieta inadequada
(rica em gordura e proteína animais, hipercalórica,
com excesso de carnes vermelhas, salgadas ou artificialmente
conservadas, pobre em produtos vegetais), o álcool
e vários agentes ocupacionais, como solventes orgânicos,
anilina, asbesto e pesticidas. Os agentes físicos principais
são a irradiação solar e a de aparelhos
de radio-diagnóstico e de radioterapia. Os agentes
biológicos principais são os vírus das
hepatites B e C, que causam câncer de fígado),
o papilomavírus (HPV), principal responsável
pelo câncer de colo uterino e o Helicobacter pylori
(que pode causar tumores no estômago).
2- Muitas campanhas alertam para a necessidade de fazer
exames preventivos dizendo que o câncer pode ser curado
se for detectado no início. No entanto, vira e mexe
a gente escuta o caso de alguém que foi ao médico,
fez um check up e, poucos meses depois, foi acometido de um
câncer galopante em tal órgão e acabou
morrendo. Qual é, na realidade, o benefício
dos exames preventivos? Até que ponto eles são
eficazes? Os exames são eficazes em todos os tipos
de câncer?
Muitas vezes porque estes exames são
solicitados de forma aleatória, não se levando
em conta os riscos individuais de cada pessoa. Por vezes,
são solicitados sem uma visão global do indivíduo
como um todo, mas sim de forma segmentada, baseada na especialidade
do profissional a quem o indivíduo procura, como ginecologistas
ou urologistas, os quais concentram suas atenções
apenas em órgãos específicos. Exemplo,
uma mulher com fatores de risco elevados para câncer
de intestino pode realizar mamografias anuais mas, nenhum
exame direcionado à detecção precoce
do câncer intestinal e ser surpreendida com um diagnóstico
de tumor intestinal em fase mais avançada. Qualquer
pessoa pode desenvolver um câncer no decorrer de sua
vida. Alguns tipos de câncer se estabelecem sem que
se saiba como evitá-los, ao passo que os outros se
associam a situações mais ou menos conhecidas.
O risco de uma pessoa ter câncer na vida depende de
fatores individuais (ex.: pintas na pele ou pólipos
no intestino), ambientais(ex.: exposição excessiva
ao sol, contacto com produtos químicos ou com agentes
infecciosos, como o vírus HPV ou a bactéria
H. pylori) e hereditários. Para vários tipos
de câncer, é possível avaliar o risco
da doença se desenvolver, na dependência dos
fatores individuais, ambientais e hereditários. O risco
pode ser avaliado individualmente e, conhecendo-se a história
individual e familial, o mesmo pode ser atenuado ou mesmo
eliminado através de medidas preventivas e exames periódicos
direcionados. Os possíveis ou potenciais fatores devem
ser avaliados individualmente para cada cliente, sendo então
elaborado um programa para a remoção ou atenuação
dos mesmos como, por exemplo, o tratamento para abandono do
tabagismo com o uso de drogas específicas para este
fim, ou o programa de recondicionamento alimentar. Modernos
programas de informática, específicos para o
cálculo de risco para vários tumores devem ser
utilizados. Paralelamente, os clientes devem ser submetidos
periodicamente aos exames de rastreamento para diagnóstico
precoce, também escolhidos após o conhecimento
dos riscos individuais de cada um. Os exames sempre compreendem
o exame clínico completo e minucioso, incluindo-se
os da cavidade oral, cabeça e pescoço da pele,
das mamas, o exame ginecológico (mulheres), o toque
retal (homens e mulheres), e exame dos testículos (homens).
As mulheres devem ser instruídas para a realização
mensal do auto-exame das mamas, assim como os homens, o auto-exame
dos testículos. Os auto-exames da pele, boca e pescoço
também devem ser orientados e estimulados. A pesquisa
de sangramento oculto nas fezes em homens e mulheres a partir
dos 40 anos, o Papanicolau do colo uterino em mulheres em
idade sexualmente ativa, a mamografia para mulheres acima
dos 49 anos e a dosagem de PSA para homens acima de 45 anos
devem ser solicitados de rotina e, subseqüentemente,
a cada visita de controle. Exames mais específicos
ou de rastreamento de outros tumores serão indicados
baseados na avaliação do risco individual (ex.:
mamografias mais precoces e ultrasonografia transvaginal em
pacientes com síndrome dos cânceres de mama e
ovário familial e colonoscopia para os clientes com
síndromes familiares de câncer intestinal.
3- Fale sobre a genética e o câncer?
Todos os tipos da doença são familiares? Por
que a gente ouve dizer que o câncer de intestino e de
mama, por exemplo, são familiares? E os demais não
são? Há tipos que são mais 'genéticos'
do que outros?
Admite-se hoje que cerca de 10 a 15% de todos
os tumores sejam hereditários. Este número tende
a crescer, na medida em que novos genes ligados ao câncer
são reconhecidos pela ciência. Os fatores genéticos
podem ser avaliados através do estudo da tendência
familiar de cada pessoa e de alguns exames que detectam mutações
em genes específicos, responsáveis por determinados
tipos de câncer, como as síndromes do câncer
familial de mama, de intestino, de tireóide, de ovário
e de pele. Tal identificação é vital
na prevenção e no diagnóstico precoce
desses tumores. Existem tumores causados exclusivamente por
fatores ambientais, como o câncer do colo uterino causado
pelo HPV.
4- O câncer tem cura mesmo? Todos os tipos são
passíveis de cura?
Cerca de 50% de todos os casos de câncer
são curados com os atuais recursos que a medicina oferece.
Contudo, a probabilidade de alguém se curar está
bastante ligada ao diagnóstico precoce. Em outras palavras,
quanto mais inicial o câncer, maior será a chance
dele ser curado, graças aos tratamentos hoje disponíveis.
É sempre importante ressaltar que os pacientes devem
ser tratados sempre por profissionais capacitados e treinados
para este fim.
5- Fale sobre as novas drogas, as chamadas inteligentes,
e como elas atuam?
O tratamento mais tradicional utiliza medicações
denominadas “quimioterápicos”. Estas atuam
inibindo o crescimento de células que possuem alta
velocidade de crescimento, como as células do câncer.
Entretanto, algumas células normais do corpo também
crescem rapidamente, como as células do folículo
piloso (que fazem o cabelo) ou as células brancas do
sangue(responsáveis pelo combate às infecções)
Por isso, a quimioterapia provoca efeitos indesejáveis,
como queda de cabelos e redução da resistência
à infecções pois, atuam tanto inibindo
o crescimento de células tumorais como o de células
saudáveis. Mais recentemente, novos medicamentos, denominados
“DROGAS INTELIGENTES” ou agentes biológico-moleculares,
passaram a ser testados em vários tumores. Eles fazem
parte de uma nova geração de agentes contra
o câncer, cujo mecanismo de ação difere
totalmente daquele das drogas até então utilizadas,
tais como os quimioterápicos. Seu efeito destrutivo
se faz exclusivamente nas células malignas, o que poupa
e preserva completamente as células normais do organismo,
diferentemente da quimioterapia convencional. Portanto, são
drogas com um excelente perfil de tolerância e muito
baixo índice de efeitos adversos, como queda de resistência
e conseqüente predisposição a infecções,
queda de cabelos, náuseas, vômitos e anemia,
tão comumente observados com o uso de quimioterápicos.
Tal avanço deve-se principalmente porque tais medicamentos
foram desenvolvidos para inibirem ou reverterem alterações
das células tumorais provocadas pelas mutações
genéticas produzidas pelo processo de transformação
maligno. Alterações em genes específicos
leva à produção de certas substâncias
que vão estimular o crescimento exagerado de células
e tecidos, ocasionando assim a formação e o
crescimento dos tumores malignos
6- Fale sobre as pesquisas do Vera Cruz
Life Center onde trabalha. Como funciona o serviço?
Quem pode ser atendido?
Além do atendimento convencional de diagnóstico
e tratamento do câncer, nossos dois pilares diferenciais
são a pesquisa de novos medicamentos de combate ao
câncer e o inédito programa de “Check Up”
Oncológico criado por nós, o qual faz parte
de uma área moderna da Oncologia denominada Oncologia
Preventiva. Através de uma entrevista detalhada, que
inclui uma análise da história familial e dos
hábitos individuais pode-se identificar uma série
de fatores que predispõem ao câncer. Estes fatores
são submetidos a um complexo estudo estatístico
que por sua vez define o risco individual para o câncer.
Uma vez que haja a identificação de um risco
acima do habitual, podem ser tomadas medidas individuais para
a prevenção do câncer. Elas incluem mudanças
de hábitos, como por exemplo o combate ao tabagismo
e a re-educação alimentar e, se necessário,
o uso de novos medicamentos que previnem certos tipos de câncer.
Nos casos onde exista suspeita de algum fator hereditário,
exames genéticos sofisticados são realizados.
Adicionalmente, uma rotina de auto-exames e de exames de diagnóstico
precoce é estabelecida individualmente. Com relação
à pesquisa de novos medicamentos, somos um centro de
pesquisa de referência nacional e internacional. Até
junho, serão 10 novos medicamentos em estudo clínico
em nosso Instituto. Nestes estudos, os pacientes são
tratados de forma voluntária e totalmente gratuita.
7- Ë verdade que o câncer é uma doença
traiçoeira e que não dá sinais? Que sintomas
podem levar alguém a se preocupar?
Infelizmente, o câncer não apresenta
sintomas “exclusivos” ou específicos, que
nos levem ao seu diagnóstico. Os sintomas e os sinais
do câncer confundem-se com os de doenças benignas.
O que nos deve chamar a atenção para a possibilidade
de câncer é a periodicidade e a a persistência
dos sintomas, além concomitância de outros sinais
ou sintomas, como emagrecimento, inapetência, sangramento,
dor, tosse, rouquidão, dificuldade de cicatrização
de feridas, aparecimento de nódulos ou tumorações
e mudanças de hábito intestinal ou urinário.
O importante é que o compromisso do médico e
do paciente seja sempre com o diagnóstico, ou seja,
com a causa daquele problema identificado, para que, somente
depois da mesma ser descoberta, seja indicado algum tipo de
tratamento. Exemplo, uma anemia pode ser um quadro inicial
de um tumor no intestino. Se o paciente for tratado para a
anemia, certamente este fato vai mascarar ou procrastinar
o diagnóstico do fator causal desta anemia, no caso
o tumor intestinal, propiciando conseqüentemente um diagnóstico
mais tardio e menores chances de cura.
9- Tem algum fundo de verdade a idéia
de que as pessoas estressadas, cheias de mágoa e raiva
acabam 'construindo' um câncer?
Existem muitas suposições neste
sentido. Ocorre que tal hipótese não foi até
o momento confirmada cientificamente. O que sabemos é
que pacientes com sentimentos negativos em relação
à doença e com perfil extremamente depressivo
usualmente toleram menos o tratamento oncológico e
apresentam mais complicações dele advindas.
10- Penso que a sua atividade não deve ser fácil,
pois lida com a dor e a morte muito de perto. Sua profissão
não deve ser muito gratificante. Estou certa? O que
mudou na sua vida depois que começou a tratar de doentes
de cãncer?
A especialidade exige muito de nós,
oncologistas. Lidamos diuturnamente com pessoas portadoras
de doenças graves e causadoras de sofrimento, dor,
ansiedade, não só a elas, mas também
a seus familiares e amigos. A presença do câncer
altera significativamente a vida do paciente. A nova situação
por ele experimentada pode implicar em perdas profundas, como
da saúde, da integridade física pelos riscos
de mutilações e amputações, dos
amigos, da capacidade de trabalho, de dinheiro, da auto-estima,
da convicção religiosa e do senso de imortalidade.
A ruptura de sua rotina normal de vida e trabalho, o medo
do tratamento, da incurabilidade ou da morte, podem traduzir-se
em reações das mais diversas, como ansiedade,
sentimento de culpa ou de revolta, agressividade, depressão
e até mesmo no desencadeamento de fenômenos psicóticos.
Muitos pacientes e, mesmo os familiares, podem tentar negar
ou ocultar o diagnóstico. Por isso, a comunicação
do diagnóstico ao paciente e aos familiares deve ser
cercada de muitos cuidados. O médico deve procurar
ser o mais claro e preciso possível. Todas as possibilidades
terapêuticas devem ser esclarecidas, bem como sua eficácia
e efeitos colaterais indesejáveis. É preciso
que o médico tenha sempre uma postura sincera, e esteja
sempre pronto a ouvir. O paciente deve ser estimulado a expor
a sua dúvidas, medos, bloqueios e outras reações.
Talvez eu enxergue hoje o mundo, a vida e a morte de forma
diferente de quando não lidava com pacientes oncológicos.
Como muitas vezes nosso esforço resulta em apenas alguns
poucos meses de sobrevida a mais para os pacientes, aprendi
a medir o tempo de vida muito mais de forma qualitativa do
que quantitativa. Já acompanhei pacientes que, restando
apenas alguns poucos meses a mais de vida, proporcionados
por uma quimioterapia, viveram-nos tão intensa e profundamente
que certamente superaram anos de vida de muitas pessoas saudáveis,
incluindo a mim próprio. Além disso, aprendi
a buscar para meus pacientes o que chamamos de qualidade de
vida. O prolongamento da vida de um paciente deve ser acompanhado
sempre da busca obstinada de sua boa qualidade. O oncologista
deve ser sempre, além de um otimista, um profissional
preocupado com a melhoria da qualidade de vida dos pacientes,
quer seja optando por tratamento mais humanizados, individualizados
e menos tóxicos, como também pela busca incessante
do controle dos sintomas que mais os incomodem, especialmente
a dor. Em oncologia, mais do que em qualquer especialidade,
vale sempre a máxima: curas às vezes, confortar
e paliar sempre.
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